Geral - 19/11/2019 - 19:05:32
Clube do Livro: servidor escreve sobre ?A hora e a vez de Augusto Matraga?, de Guimarães Rosa
Integrantes do grupo farão artigos para instigar a leitura de obras que são debatidas em encontros realizados, a cada última quinta-feira do mês, na sede da Esmal

O mediador do Clube do Livro Direito e Literatura da Escola Superior da Magistratura de Alagoas (Esmal), servidor Gustavo Tenório, escreveu um artigo sobre o conto ?A hora e a vez de Augusto Matraga?, de João Guimarães Rosa, publicado no livro Sagarana, lançado no ano de 1946.

Este é o primeiro de uma série de artigos que serão produzidos pelos participantes do Clube do Livro com o objetivo de estimular a leitura das obras que são debatidas a cada última quinta-feira do mês, no Café Literário da Esmal. As reuniões iniciam às 19h e têm três horas de duração. A cada seis obras lidas e debatidas é emitido um certificado de participação com carga horária de 18 horas para os participantes.

Confira abaixo o artigo:

A AÇÃO DO IMPONDERÁVEL EM ?A HORA E A VEZ DE AUGUSTO MATRAGA?

O Clube de Leitura ?Direito & Literatura?, da Escola de Magistratura do Estado de Alagoas ? ESMAL, viajou para os confins do sertão do Alto São Francisco no mês de outubro do corrente ano. A viagem se deu a um dos mais celebrados contos do escritor mineiro João Guimarães Rosa: ?A hora e a vez de Augusto Matraga?, conto que compõe o livro Sagarana, lançado no ano de 1946.

Assim como o conto ?O Alienista? se situa entre os principais trabalhos de toda a obra de Machado de Assis, a história de Augusto Matraga, um influente mandatário, insubmisso e incontrolável dono de terras do sertão mineiro, encontra-se ao lado de Grande Sertão: Veredas como uma de suas principais pérolas literárias.

Rosa nos apresenta a Augusto Matraga e ao seu fatídico destino. Dono de fazendas no sertão do Alto São Francisco, o personagem mostra-se como uma fiel representação do mandonismo local que ditou as regras e as formas de comportamento nos sertões do Brasil ao longo de séculos de processo civilizatório. Num contexto em que se havia um vazio de poder, onde o Estado não se fazia presente, mandões locais impunham suas vontades particulares através da força e da violência. Aliás, como bem pontuou Hannah Arendt, ?a violência aparece como pré-requisito do poder?1.

Nhô Augusto era visto pela comunidade como um homem rude, sem respeito, ou, como mesmo relatou Quim, seu recadeiro, alguém que ?nunca respeitou filha dos outros nem mulher casada, e mais que é que nem cobra má, que quem vê tem de matar por obrigação...?. Augusto Matraga ostentava sua agressividade perante os sertanejos, uma vez que angariado pela sua posição de chefe, com suas posses e seus capangas. Nesse contexto, nos lembra ainda a historiadora Heloísa Starling que ?apenas os proprietários [de terra] estavam aptos a exercer a cidadania?2, ou seja, apenas essas pessoas poderiam reivindicar direitos e exercê-los de forma ampla, em sua plenitude.

Sua estabilidade começa a se perder justamente no momento em que sua esposa, Dionóra, abandona-o para viver com um pretendente, Seu Ovídio, um outro Senhor de terras, que a leva para viver consigo e, em suas palavras, ?com o querer dos meus parentes todos e com a bênção de Deus!?, notícia esta devidamente encaminha por Quim recadeiro a Nhô Augusto. Vê-se aí mais uma manifestação de centros de poder difusos em choque, encabeçados por famílias detentoras de terras desse Brasil profundo. Aliás, é essa promessa de confronto iminente que permeia a vida no sertão e que é bem elaborada no texto de Guimarães.

Tomado de ódio, Matraga prepara-se para se vingar de Ovídio, mas se sobressalta ao saber que seu bando de capangas o abandonou em razão da falta de pagamento, além de se juntarem às forças do Major Consilva, rival local que pretende se apropriar de suas terras.

Resolve o personagem se dirigir primeiro ao encontro do Major Consilva. Em mais uma desdita, ao chegar na fazenda de seu desafeto, é espancado por seus antigos capangas. Desacordado, é levado para os limites das terras do Major para ter marcado a ferro as iniciais do nome do inimigo e, então, ser executado. No entanto, ao sentir a brasa em seu corpo, desperta-se em desespero e desaba numa ribanceira, rolando até as profundezas, quebrando-se-lhe o corpo. É tido como morto pelos capangas, que assim confidenciam ao mandante da obra. Mas sobrevive, sendo resgatado por um casal de negros, descendentes de escravos que viviam isolados num grotão afastado das povoações.

Em mais uma reviravolta em sua vida, Augusto recebe os cuidados do casal por dias e meses. Durante sua recuperação, entre o delírio e a resistência, Matraga entrega sua sorte a Deus e, ao se recuperar, decide mudar de vida e de comportamento, conforme o aconselhara o padre que lhe fizera visitas durante o tempo em que se viu acamado. Acredita-se um novo homem, temente a Deus e generoso com as pessoas. Passa a levar uma vida de abstinência de sexo, de brigas, de bebida e de outros comportamentos que considerava como vícios mundanos. Parte com o casal de negros, ao qual trata como pais, para uma de suas terras, localizada a léguas de onde vivia nas Pindaíbas.

No entanto, ao reencontrar seu passado através de um velho conhecido que acaba por encontra-lo naquele rincão distante, em virtude de uma boiada bravia, a qual conduzia, ter se perdido e se dissipado por aquela região ? eis mais uma vez a ação do imponderável ?, Nhô Augusto entra em conflito existencial ao saber do destino de sua esposa, de sua filha, do Quim recadeiro, morto pelos homens do Major Consilva ao tentar vingar a sua suposta morte, e das suas terras. Passa a olhar as mulheres como antes o fazia, a gozar de um bom cigarro, a se deliciar com o ardor de pinga a lhe descer a garganta. Com a chegada do bando de jagunços de Seu Joãozinho Bem-Bem, o mais afamado líder de jagunços dos sertões mineiro e baiano, entra, mais uma vez, em conflito existencial diante do prazer nostálgico da beligerância.

Logo, ganha a simpatia de Joãozinho Bem-Bem e o convite para se juntar ao bando. Mas recusa, grato, em nome da vida regrada, mansa e pacífica que escolheu para si. Ganha o crédito do chefe jagunço, que o trata como parente, para solucionar eventual desavença que venha a ter. Parte o bando e segue Augusto em conflito, não cabendo em si. No entanto, ao ponderar as razões de sua inquietude, ouve melhor o seu Eu e resolve seguir rumo a um destino de acerto de contas com a sua história.

Montado em um jegue repleto de simbolismo cristão, segue estrada novamente com direção às Pindaíbas, a um retorno, ainda que por um caminho tortuoso e cheio de descaminhos. Encontra novamente o imponderável no Arraial do Rala-Coco: encontra-se com Joãozinho Bem-Bem, prestes a executar um homem em razão de vingança por ter um de seus filhos matado o Juruminho, jagunço com quem Matraga fizera amizade outrora. A intenção de Augusto era de entrar no bando de jagunços e vingar a morte de Quim recadeiro junto aos do Major Consilva. Mas o destino quis que o rumo fosse outro naquele povoado. Numa batalha, Nhô Augusto Estêves desafiou todo o bando e o próprio Joãozinho Bem-Bem, com o qual travou um duelo mortal, para ambos. Em seus últimos suspiros, reconhecendo e sendo reconhecido pelo homem que seria executado pelo líder jagunço, pede-lhe que leve as bênçãos a sua filha, ?seja lá onde for que ela esteja?, e que diga a Dionóra, sua esposa, que ?está tudo em ordem?.

Da obra se extraem ricas reflexões psicológicas, filosóficas, sociológicas e jurídicas. Ainda que o pano de fundo tenha como cenário o sertão mineiro, o texto revela-se universal, por assim dizer. As temáticas que o leitor se depara a cada página têm pertinência com o agora. Mais precisamente ao que tem pertinência às ciências jurídicas e políticas, a realidade do sertão rosiano e de sua organização possibilita um melhor entendimento sobre a construção do Estado brasileiro, de seus vícios e de seus vácuos.

Ainda existem vazios de poder no imenso território do Brasil ? não só em seus confins rurais, mas também nas zonas periféricas das cidades. Também se encontram aquelas manifestações de mandonismos locais, seja pelos ricos latifundiários das regiões de fronteira agrícola ou seja pelas organizações que comandam o tráfico de drogas e de armas nas favelas do país. As roupagens podem ser diversas daquelas dos senhores de terra do sertão, mas a estrutura e a lógica de poder permanecem naquela mesma equação de ?violência? sendo igual a ?poder?.

O desafio desse Brasil atual continua sendo fazer-se presente em todo território para todos os seus cidadãos, objetivando segurança, estabilidade e previsibilidade para essas vidas. Tentando superar uma organização social baseada na hierarquia e no patrimonialismo, a Constituição Federal de 1988 surgiu com a proposta de rompimento com essa realidade que avançava séculos à fio. Princípios como o da Igualdade e o Democrático assentam as bases e os fins do Estado brasileiro. O Poder Judiciário, portanto, é mais um proporcionador desses ideais na busca de uma sociedade mais justa e igualitária, diferente do que se vê naquela lógica de Nhô Augusto, Major Consilva e Joãozinho Bem-Bem.

1 ARENDT, Hannah. Crises da República. São Paulo: Perspectiva, 1973. p. 125.

2STARLING, Heloísa Murgel. Lembranças do Brasil ? teoria, política, história e ficção em Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: Revan, 1999. p. 44.

Artigo de Gustavo Tenório, servidor da 14ª Vara Cível e mediador do Clube do Livro Direito e Literatura 


Diretoria de Comunicação - Dicom TJAL
imprensa@tjal.jus.br ? (82) 4009-3240 / 3141



Curta a página oficial do Tribunal de Justiça (TJ/AL) no Facebook e acompanhe nossas atividades pelo Twitter. Assista aos vídeos da TV Tribunal, visite nossa Sala de Imprensa e leia nosso Clipping. Acesse nosso banco de imagens. Ouça notícias do Judiciário em nosso Podcast.